domingo, 5 de outubro de 2014

Centurion Classics: Resenha de Awake



   20 anos de um dos maiores discos do Prog Metal


   Após o inovador " Images And Words", álbum que trouxe o hit " Pull Me Under" e teve uma bem-sucedida turnê, resultando no disco ao vivo "Live At The Marquee", o Dream Theater entrava em estúdio para a produção de seu terceiro álbum. O sucesso comercial alcançado pelo último trabalho fez com que a gravadora definisse um prazo para sua gravação e colocasse nos ombros de todos uma pressão inédita até então.
   Quando pensamos no " Awake", inevitável se faz a associação à despedida de Kevin Moore. O tecladista, que era o principal motor criativo da banda na época, se afastou em função de divergências musicais antes mesmo do processo de mixagem.
   Apesar desses contratempos, "Awake" viria a se  tornar um dos principais discos da carreira dos nova-iorquinos (o preferido na opinião deste que vos escreve), bem como um dos melhores do metal progressivo. O registro mostra uma evolução em relação ao seu antecessor, além de percorrer caminhos ainda não explorados. Trata-se de um álbum mais pesado, denso, atmosférico e, por vezes sombrio, embora seja ao mesmo tempo diversificado, abrindo espaço para belas baladas também.


   A faixa "6:00" dá inicio ao disco. O trabalho elaborado de percussão de Mike Portnoy, seguido por um riff "encorpado" de guitarra mostram logo uma nova cara da sonoridade da banda. Os vocais de James Labrie surpreendem também, mais agressivos e com mais groove. Apesar do notável peso, as passagens intrincadas marcam a canção e elementos de fusion se fazem presentes com fartas contribuições da bateria e do baixo. 
   " Caught in a Web" segue acrescentando vigor, Destaque para a guitarra de 7 cordas de John Petrucci e o trabalho dos bumbos da bateria que tornam o som ainda mais denso e pesado. Por outro lado, o teclado de Kevin Moore e o refrão mais lento não nos deixa esquecer do lado mais harmônico do grupo. 
   Para equilibrar um pouco as coisas, surge " Innocence Faded", uma canção mais cadenciada e melódica. Como nem tudo são flores, Labrie se excede um pouco em seus agudos, sendo difícil até mesmo compreendê-lo em um determinado momento. Acho que é apenas uma música razoável, mas que tem uma crescente em sua parte instrumental no final, cortesia mais uma vez do belo trabalho de guitarra de Petrucci.
   Tem-se início então a suíte "A Mind Beside Itself", dividida em três faixas: "Erotomania", "Voices" e " The Silent Man". 

   I. Erotomania - Segunda música instrumental da carreira do grupo. É altamente técnica, intrincada e cheia de nuances.Uma espécie de " YYZ" mais metálica em seu princípio, tem um interlúdio bem melódico e cheio de feeling, seguido por outro onde destacam-se as influências de metal neoclássico de Petrucci. Até que como uma autêntica canção progressiva, tem-se o retorno a sonoridade à la Rush do seu começo.

   II. Voices - Um dos destaques do disco e uma das grandes canções da carreira dos norte-americanos, é daquelas que se contrapõem a bobagens que tantos repetem de que a sua música é feita para músicos somente. " Voices" é uma composição cheia de feeling e melodia e com uma atmosfera que te hipnotiza e te traz para dentro de seu universo particular. Todos os integrantes apresentam grande performance e entrega, mas meu destaque principal vai para Kevin Moore, sem o qual o clima fantasmagórico aqui presente não seria possível.

  III. The Silent Man - Talvez a música mais singela de toda a trajetória da banda. Em formato acústico, parece ter sido preparada para entrar nas rádios FM. Porém, não há o menor problema nisso, pois ela é daquelas baladas gostosas de se ouvir e, na minha opinião, soa bem mais natural e convincente do que as últimas desse estilo feitas pelo grupo.

   Após a suavidade de " The Silent Man", o ouvinte é surpreendido com talvez o riff mais pesado já criado por Petrucci. " The Mirror" retoma o peso e densidade característicos do álbum, enquanto os teclados de Kevin Moore mais uma vez dão um show a parte, contribuindo para seu clima sombrio. A oitava faixa " Lie" chega pegando carona, trazendo uma levada deveras envolvente. Destaque para a performance de James Labrie. Um dos motivos de " Awake" ser um dos meus favoritos é exatamente o fato deste ser o disco em que o seu desempenho se mostra mais versátil e forte. Nesta música, ele transita dos vocais suaves, quase sussurrantes,  aos grunhidos à la James Hetfield no refrão, com extrema facilidade e segurança.
   Um timbre bem gostoso de baixo introduz a mais uma das baladas do álbum: " Lifting Shadows Off a Dream", composição de John Myung, que versa sobre as dificuldades de um relacionamento em seu fim. Bem elaborada, é daquelas que vai crescendo no decorrer de sua audição e, quando menos se espera, John Petrucci toca fraseados que remetem a The Edge, enquanto a melodia parece ter sido extraída de um "Joshua Tree" do U2. Serei redundante, porém mais uma vez o trabalho das teclas de Kevin Morre tem um papel importante, criando arranjos orquestrais que enriquecem e adornam ainda mais a música.
   A décima faixa, " Scarred", é a música de mais dificil assimilação do álbum. Em suas mudanças de andamento, alternando momentos sombrios e pesados com outros melódicos e mais suaves, é outra das canções mais inspiradas da história do Dream Theater. Seu clímax ocorre em sua passagem instrumental, onde há um solo de teclado seguido por um acachapante solo de guitarra. Uma estratégia já muito utilizada no rock, mas que normalmente tem um efeito sensacional.
   E o " gran finale" fica por conta de uma composição de Kevin Moore. Baseada no piano e nos vocais em sua grande parte, ela marca a despedida do tecladista. Melancólica, introspectiva, atmosférica, sombria e única! Uma viagem para dentro de um universo paralelo e uma amostra da genialidade de seu compositor. Assim é " Space Dye-Vest", canção mítica que, por muito tempo, ficou ausente dos set-lists, mas que pode ser conferida na atual turnê do grupo. Incrível como ela transborda sentimento, enquanto uma inevitável nostalgia bate, mesmo naqueles que ainda não conheciam o Dream Theater naquela época. Um divisor de águas para a carreira da banda.

   Na maioria das vezes subjugado pela crítica em relação a " Images and Words" ou ao " Metropolis pt 2", deixo nesse texto meu desejo para que esse grande clássico do metal progressivo receba o seu devido reconhecimento lado a lado com estes dois. Talvez a homenagem que o Dream Theater vem rendendo a ele em seus últimos concertos, contribua um pouco mais para isso.

   
   

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